A polícia chegou com um mandado de busca e apreensão. O que fazer?
Se a polícia chegou à sua casa ou empresa com um mandado de busca e apreensão, o primeiro cuidado é não oferecer resistência física e verificar exatamente o conteúdo da ordem judicial.
Observe o endereço autorizado, a finalidade da diligência, a autoridade que expediu a ordem e os objetos ou elementos que estão sendo procurados.
Um mandado de busca e apreensão não concede poderes ilimitados à polícia.
A Constituição protege a inviolabilidade do domicílio e o Código de Processo Penal estabelece requisitos para a expedição e execução da busca.
Também é importante diferenciar duas situações que frequentemente são confundidas: apreender fisicamente um celular não é a mesma coisa que acessar livremente todos os dados existentes no aparelho.
Em 2025, no julgamento do Tema 977 da repercussão geral, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu parâmetros específicos para acesso policial a dados de celulares apreendidos.
Resposta rápida
A polícia pode entrar com mandado?
Sim, desde que exista ordem judicial válida e sejam observados os limites da decisão e as regras legais de cumprimento.
O mandado vale para qualquer endereço?
Não necessariamente. O local da diligência deve estar adequadamente identificado na ordem judicial.
A busca pode começar às 5 horas da manhã?
Segundo decisão da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça no RHC 196.496/RN, o cumprimento de mandado de busca domiciliar pode ocorrer a partir das 5h, mesmo sem luz solar. O intervalo considerado pelo tribunal é das 5h às 21h.
A polícia pode apreender meu celular?
Dependendo do objeto da investigação, sim.
Se apreender o celular, pode abrir meu WhatsApp?
A apreensão física do aparelho e o acesso aos dados são questões juridicamente diferentes. Nas hipóteses definidas pelo Tema 977 do STF, o acesso aos dados de aparelho apreendido depende de consentimento livre e expresso do titular ou de prévia decisão judicial, ressalvadas as particularidades previstas na própria tese.
Posso procurar um advogado durante a busca?
Sim. A assistência jurídica permite analisar a ordem, acompanhar a diligência e posteriormente avaliar eventuais questões relacionadas à execução da medida.
Em que horário a busca e apreensão pode ser realizada?
A Constituição determina que o ingresso em domicílio para cumprimento de ordem judicial ocorra durante o dia.
Durante muitos anos houve discussão sobre se o conceito de “dia” deveria depender da existência de luz solar.
A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça enfrentou a questão no RHC 196.496/RN e decidiu que mandados de busca e apreensão domiciliar podem ser cumpridos entre 5h e 21h, utilizando como referência a Lei nº 13.869/2019.
Assim, segundo esse entendimento, uma busca iniciada depois das 5h não se torna automaticamente ilegal apenas porque ainda não nasceu o sol.
A legalidade da diligência, entretanto, não depende apenas do horário. Devem ser examinados também o conteúdo da decisão judicial, o endereço autorizado, a finalidade da medida e a maneira pela qual a ordem foi executada.
E se a polícia apreender um celular?
Atualmente, essa é uma das questões mais importantes em buscas e apreensões.
Smartphones podem armazenar conversas, fotografias, documentos, histórico de localização, e-mails, informações financeiras, dados profissionais e diversos outros aspectos da vida privada.
Por isso, é importante distinguir:
1. apreensão do aparelho físico;
2. preservação de seus dados;
3. acesso e análise do conteúdo armazenado.
No Tema 977 da repercussão geral, julgado em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal estabeleceu que a mera apreensão do celular, nas hipóteses tratadas pela decisão, não está sujeita à reserva de jurisdição.
O acesso ao conteúdo do aparelho, entretanto, está submetido às condições estabelecidas pelo STF.
Para aparelhos apreendidos na forma do Código de Processo Penal ou durante prisão em flagrante, o Supremo estabeleceu como regra a necessidade de consentimento expresso e livre do titular ou de prévia decisão judicial fundamentada, observadas as particularidades previstas na tese.
Essa distinção é essencial: ter o aparelho em mãos não significa, por si só, possuir autorização irrestrita para pesquisar toda a vida digital de seu proprietário.
Poucas situações geram tanta apreensão quanto a chegada inesperada de agentes policiais à porta de casa ou da empresa com a intenção de realizar uma busca e apreensão. A sensação de invasão da privacidade, a incerteza sobre os motivos e a preocupação com o que pode ser encontrado e levado causam natural nervosismo. Contudo, é fundamental saber que essa ação estatal não é ilimitada e que o cidadão possui direitos importantes que devem ser respeitados.
A Constituição Federal estabelece proteções robustas à privacidade e à propriedade, e a lei processual penal detalha as regras para que uma busca e apreensão seja considerada válida. Conhecer essas regras e saber como agir durante a diligência é o primeiro passo para garantir que seus direitos não sejam violados e para construir uma defesa sólida, caso necessário.
Este artigo visa esclarecer, de forma direta e compreensível, os limites legais da busca e apreensão domiciliar e empresarial no Brasil, explicando quando a polícia pode legalmente entrar, quais são seus direitos durante o procedimento e como você deve se portar para proteger seus interesses.
1. A Casa é Asilo Inviolável: A Regra de Ouro da Constituição (Art. 5º, XI)
O ponto de partida é o Artigo 5º, inciso XI, da Constituição Federal de 1988, um dos pilares dos direitos fundamentais:
“XI – a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;” 1
Essa norma consagra a inviolabilidade do domicílio. “Casa”, aqui, tem um sentido amplo: não apenas a residência própria, mas também o quarto de hotel, o imóvel alugado, o aposento ocupado de forma privativa e, importante, o local de trabalho que não seja aberto ao público (como escritórios, salas reservadas, depósitos fechados). A regra é clara: para entrar nesses locais, a polícia precisa, em princípio, do consentimento de quem ali reside ou trabalha legitimamente.
A proteção ao domicílio comercial (empresa) existe, especialmente nas áreas não franqueadas ao público, mas a jurisprudência pode, em alguns casos, conferir uma proteção ligeiramente menos rigorosa que a da residência, dependendo das circunstâncias. Contudo, a necessidade de justificativa legal para a entrada permanece.
2. Quando a Polícia pode Entrar Legalmente?
A própria Constituição prevê as exceções à inviolabilidade, ou seja, as situações em que a polícia pode entrar sem o consentimento do morador ou responsável:
2.1. Mandado Judicial (Ordem Judicial Escrita): Esta é a forma mais comum e regular para buscas planejadas.
- Requisitos: O mandado deve ser expedido por um juiz competente, de forma fundamentada (indicando os motivos da busca e o que se espera encontrar) e deve indicar o local mais precisamente possível onde a busca será realizada.
- Horário: A regra é que o cumprimento do mandado de busca domiciliar ocorra durante o dia (conceito que a jurisprudência geralmente entende como o período entre o nascer e o pôr do sol). Buscas noturnas com mandado são excepcionais e geralmente consideradas ilegais, salvo situações específicas de continuidade delitiva ou consentimento.
- Seu Direito: Exigir ver o mandado antes de permitir a entrada. Ler atentamente o endereço, o nome do juiz, a validade e o objeto da busca.
2.2. Flagrante Delito: Se um crime está ocorrendo ou acabou de ocorrer dentro do local, a polícia pode entrar a qualquer hora do dia ou da noite, sem mandado judicial.
- Justificativa: A urgência da situação (impedir a continuidade do crime, prender o autor, socorrer a vítima) justifica a entrada imediata.
- Exemplos: Gritos de socorro, barulhos de luta, visualização externa de tráfico de drogas, fuga de suspeito para dentro do imóvel logo após cometer um crime.
- Ponto Crítico: A polícia precisa ter fundadas razões (indícios concretos) para acreditar que o flagrante está ocorrendo. Mera intuição ou denúncia anônima isolada, sem outros elementos, geralmente não são suficientes para justificar a entrada sem mandado. A legalidade dessa entrada é frequentemente discutida pela defesa nos processos.
2.3. Desastre ou Prestação de Socorro: Situações óbvias de emergência que colocam vidas em risco, como incêndios, inundações, desabamentos, ou a necessidade de prestar socorro médico urgente a alguém dentro do imóvel. A finalidade aqui é humanitária, não investigativa (embora provas de crime possam ser encontradas fortuitamente).
2.4. Consentimento Válido do Morador/Responsável: Se o morador (ou quem legalmente o represente no local, como um gerente na empresa) autorizar a entrada de forma livre, voluntária, informada e inequívoca, a polícia pode entrar sem mandado.
- Atenção: Esse consentimento é um ponto extremamente sensível. A pressão do momento, o medo ou a falta de informação podem levar a um consentimento viciado. A jurisprudência tem sido cada vez mais rigorosa ao analisar a validade desse consentimento, exigindo prova clara da voluntariedade.
- Recomendação da Defesa: Em geral, não se recomenda consentir com a entrada sem mandado judicial. O cidadão tem o direito de exigir a ordem judicial, e exercê-lo não configura crime ou obstrução. Dizer “Não autorizo a entrada sem mandado judicial” é um direito.
3. A Polícia Chegou: O Que Fazer (e Não Fazer) Durante a Busca
Se a polícia está à sua porta para uma busca, saber como agir pode proteger seus direitos e evitar complicações:
- Mantenha a Calma: Evite pânico, discussões exaltadas ou qualquer ato que possa ser interpretado como resistência ou desacato.
- Verifique o Motivo da Entrada:
- Se apresentarem mandado, peça para ler com atenção (endereço, objeto, validade). Fotografe ou anote os dados, se possível.
- Se alegarem flagrante, pergunte (calmamente) qual a situação específica que justifica a entrada imediata.
- Se alegarem consentimento de outra pessoa, questione quem deu e em que circunstâncias.
- Contate Seu Advogado IMEDIATAMENTE: Este é seu direito mais importante. Informe que a polícia está realizando uma busca e peça orientação e presença, se possível. Ligue para seu advogado de confiança ou para um familiar para que o faça. A polícia não é obrigada a esperar o advogado chegar para iniciar a busca (se a entrada for legal), mas ele pode chegar durante e acompanhar o restante, além de orientá-lo por telefone.
- Acompanhe a Diligência: Você ou um representante tem o direito de acompanhar a busca em todos os cômodos. Isso é importante para observar o que é feito e prevenir irregularidades (como o “plantio” de provas).
- Chame Testemunhas: Se possível, solicite a presença de duas testemunhas (vizinhos, funcionários de outra área da empresa, etc.) que não tenham relação com os fatos investigados para acompanhar a busca e assinar o auto final (Art. 245, §4º, CPP).
- Observe e Registre (Mentalmente ou Depois): Preste atenção onde os policiais mexem, como manuseiam os objetos, o que selecionam para apreender. Note se há danos desnecessários ou se excedem o objeto do mandado (se houver). Não interfira fisicamente.
- Não Responda Perguntas Incriminatórias: Exerça seu direito ao silêncio. Não dê explicações sobre objetos encontrados, não confesse nada, não discuta o mérito da investigação sem a presença de seu advogado.
- Exija o Auto de Apreensão: Ao final da busca, tudo que for levado pela polícia deve ser minuciosamente descrito no Auto de Apreensão. Leia com atenção a lista de itens, verifique se corresponde à realidade e exija uma cópia (contra-recibo). Se discordar de algo, peça para constar sua ressalva.
4. Limites da Busca e Apreensão: O Que não Podem Fazer?
Mesmo com mandado ou em flagrante, a ação policial tem limites:
- Limitar-se ao Objeto e Local do Mandado: A busca deve se ater ao que está especificado na ordem judicial (procurar armas não justifica ler documentos pessoais aleatórios, por exemplo). Descobertas fortuitas de outros crimes podem ser válidas, mas a busca não pode ser uma “pescaria” genérica.
- Evitar Danos Desnecessários: A ação deve ser realizada com o devido cuidado para não destruir propriedade de forma injustificada.
- Respeitar a Dignidade: Tratamento vexatório, humilhante ou intimidador é ilegal e configura abuso de authority.
- Busca Pessoal Justificada: A busca domiciliar não se confunde com busca pessoal. Para revistar as pessoas presentes no local, é preciso fundada suspeita individualizada contra cada uma delas (Art. 244 CPP).
- Coagir para Obter Senhas ou Confissões: Usar de ameaça ou violência para forçar o acesso a dispositivos eletrônicos ou obter declarações é crime.
Qualquer violação desses limites pode tornar a prova obtida ilegal (ilícita) e inutilizável no processo, além de poder gerar responsabilização para os agentes envolvidos.
Conclusão: Conhecimento é Proteção
A inviolabilidade do domicílio e do local de trabalho é uma garantia constitucional forte, mas não absoluta. Conhecer as exceções que permitem a entrada da polícia (mandado judicial, flagrante delito, consentimento válido) e, principalmente, saber quais são seus direitos e como agir durante uma busca e apreensão é fundamental para proteger sua privacidade, seus bens e seus direitos processuais.
Manter a calma, observar atentamente, exigir a documentação correta (mandado, auto de apreensão), chamar testemunhas, acompanhar a diligência e, acima de tudo, contatar imediatamente um advogado criminalista são as atitudes mais importantes. Lembre-se: você tem o direito de não produzir prova contra si mesmo e de ser tratado com dignidade.
Se você passou por uma busca e apreensão ou tem dúvidas sobre seus direitos, não hesite em procurar orientação jurídica especializada. Um advogado poderá analisar a legalidade do ato e tomar as medidas cabíveis para proteger seus interesses.



